
Separados por 22 anos, dois filmes de momentos diferentes do cinema nacional,
feitos para públicos diferentes, com duas intenções totalmente
diferentes. Como Fazer um Filme de Amor (2004), de José
Roberto Torero - como o próprio título sugere - mostra
como fazer (e também ser) um filme romântico padrão. Já
Luz Del Fuego, de David Neves (1982) - também
denunciado pelo título óbvio - é a história real
de uma mulher sexy e despudorada e suas jogadas que a colocaram como uma das
maiores vedetes dos 50 e 60 no Brasil. Fácil apontar: um filme de amor
e um filme de sexo.
O intencional, no entanto, toma outros rumos enquanto cada um dos dois filmes
se desenrola, e tanto para uma como para a outra produção, estamos
ao final pensando muito sobre como os filmes são aquilo que não
pareciam ser antes de começar (hein?!). Pior para Como Fazer
um Filme de Amor, já que é ele quem desaponta se transformando
num filminho fraco, aquém de suas possibilidades e assumidamente interesseiro.
Justamente o que parecia ser o mais fácil.
Misturar um exercício metalingüístico a clichês de
um gênero definido e popular como a comédia romântica, apesar
de não ser original, era uma boa idéia. Construir o filme escolhendo
desde os personagens até as situações clichês era
uma boa idéia. Um narrador engraçadinho sugerindo, consertando
e apurrinhando os personagens também era uma boa idéia. Mas Como
Fazer um Filme de Amor é mais uma boa idéia do que um
bom filme.
Faltou ao diretor abraçar e acreditar mais na sua idéia, melhorar
o timing de suas piadas, gritar para alguns atores entrarem no clima,
poxa! Marisa Orth, afetadíssima, é a um única
que agrada de verdade, assume o estereótipo que sua personagem má
pede e parece encaixada no filme. O convite a Paulo José
para o papel de narrador também é equivocado já que demora
para o ator ser simpático com seu vozeirão meio baba ovo.
Salvando-se algumas piadas pelo meio do caminho, como a seqüência
da primeira vez do casal e a falação do narrador enquanto os créditos
sobem, Como Fazer um Filme de Amor passa longe de ser um filme
de amor. No máximo uma enganação comercial simpática.
O narrador diz ao final que todos os filmes, inclusive este, não passam
de tentativas para tirar o dinheiro do público. Outra piada que não
teve a menor graça.

Já Luz Del Fuego vem lá dos longínquos anos 80, em que
a nudez parecia palavra de ordem e que tenho como missão, entender o
que seu período de produção cinematográfica significou.
A abertura, com Lucélia Santos nua, trouxe rápido
a afirmação que passei minha infância e adolescência
ouvindo: filme nacional só tem putaria e mulher pelada. Luz
Del Fuego confirma isso, mas de uma maneira que me pegou de surpresa.
A nudez da personagem título interpretada por Lucélia
Santos - vestida em três ou quatro cenas no máximo
- ganha com o tempo a justificativa naturalista. Mas é ao redor desta
nudez que cresce o que há de limpo e belo no filme, e fora dele também.
Atacando a falta de pudor de Luz aparecem os grupos de proteção
a família, de proteção aos valores, de proteção
aos animais (!) em programas no melhor estilo Superpop.
Se a parte da “mulher pelada” em Luz Del Fuego
já tem um grande senão, a parte da “putaria”
acaba se tornando o grande senão. O sexo, algo no mínimo esperado
com tantos corpos a mostra, só aparece quando há um casal apaixonado.
Forçado? Pode ser, Luz não era santa, nem queria ser. Mas estava
rodeado de santos. Políticos, delegados e autoridades, senhoras de família
e imprensa, todos os seguimentos que representam as instituições
deste país são justamente a grande putaria. De antes e de hoje.
Mesmo sendo de outra época, como não traçar um paralelo
entre toda a sujeira do filme e toda a sujeira que estampa os jornais hoje,
em que acordos são “descobertos” e expostos como
se fossem uma grande novidade? O mundo bonito e engravatado, representante dos
valores, usa os discursos que todos sabem ser uma grande bobagem, mas todos
se horrorizam e colocam a culpa no sexo e na nudez.
Conclusão: um susto. O filme de amor se revela uma tentativa frustrada
de brincar com a chatice de um gênero (caindo na mesma chatice) e o filme
de sexo uma crítica social que não envelheceu nada.
Como Fazer um Filme de Amor
Idem, Brasil, 2004.
Direção: José Roberto Torero
Elenco: Denise Fraga, Cássio Gabus Mendes, Marisa Orth,
André Abujamra, Paulo José, Ana Lúcia Torre
Luz Del Fuego
Idem, Brasil, 1982.
Direção: David Neves
Elenco: Lucélia Santos, Joel Barcellos, Ivan Cândido,
Walmor Chagas, Renato Coutinho, José de Abreu, Celso Faria, Wilson Grey
Também tem o novo cd do System of a Down,
Mezmerize, que me atrapalhou por quase uma hora a escrever
o texto acima tamanho o susto que causou: mas que zona é aquela?! Não
sei, mas não ouço outra coias desde então.