sexta-feira, julho 29, 2005

Adaptaçãoo ou transposição?

Decepcionante. Foi a essa conclusão que cheguei quando assisti a Capitão Sky e o Dia de Amanhã, que prometia ser uma nova revolução em como fazer cinema. O que vi foi um filme mediano (considerando o roteiro e personagens) com uma pretensão exagerada, exibido e, acima de tudo, desproposital. Afinal, qual a vantagem de gravar um filme todo sobre o fundo verde e criar o cenário digitalmente? No caso do alardeado Sin City – A Cidade do Pecado, a resposta é fidelidade a graphic novel (que não faço idéia do que seja, mas todos chamam assim) homônimo de Frank Miller.

Decepção novamente. O filme de Robert Rodriguez traz muitas vantagens sobre o filme de Kerry Conran. É menos ingênuo (mas está longe de ser mais maduro), menos filme-bobinho-que-só-estréia-na-Sessão da Tarde e se aproveita com propriedade e eficácia de seu formato semi-virtual para criar seqüências que caminham entre vislumbre visual e bizarrice tosca/cômica (intencional ou não, não sei). As comparações de páginas do trabalho de Frank Miller com seqüências do filme impressionam, mas também escancaram ainda mais a maior pergunta não respondida: pra que diabos esse filme foi feito?

Qual a vantagem de filmar um filme exatamente como ele já existe? Quando Gus Van Sant refilmou quadro a quadro Psicose, foi duramente criticado. Não entendo porque toda a exaltação em cima de Sin City se o filme não passa de uma cópia animada de um gibi! Em quem devemos por a culpa por falhas no roteiro (homens duros e malvados até o osso, mulheres prostitutas e mais malvadas que os homens, em histórias que se resumem a vingança com a morte sádica dos inimigos), ou pelo falta de ritmo que parece emperrar o filme em alguns momentos? Ou quem deve ser parabenizado pelos belos enquadramentos e planos: Rodriguez ou Miller?

Provavelmente os dois. Tanto para a aprovação quanto para a culpa. A preocupação com a fidelidade foi tamanha que adaptação foi confundida com transposição forçada: do papel para as telas, dos balões para a narração (chata e cansativa), do escuro e restrito mundo dos quadrinhos para a “pretensa vanguarda ultra-cool” do cinema.

Como disse Kleber Mendonça Filho, Tarantino deveria ter feito mais do que gritar “Ação... Corta!” em trinta segundos do filme e ter dito para o amigão Rodriguez FAZER um filme de verdade e, como disse Ailton Monteiro (quando escreveu sobre Capitão Sky), se isso é o futuro do cinema, vou viver de assistir filmes velhos mesmo. E pensar que o trailer era tão bom!

Sin City - A Cidade do Pecado
Sin City, EUA, 2004
Direção: Robert Rodriguez e Frank Miller (Quentin Tarantino? Fala sério...)
Elenco: Bruce Willis, Mickey Rourke, Jessica Alba, Clive Owen, Nick Stahl, Powers Boothe, Rutger Hauer, Elijah Wood

Também tem o comentário perfeito de Kleber Mendonça Filho (again) sobre A Fantástica Fábrica de Chocolate: "Eu adoraria ter sete ou dez anos de idade para ver esse filme com um olhar infantil".

Nenhum comentário: