segunda-feira, janeiro 23, 2006

42!

Comentário original de julho, quando o filme foi conferido no cinema.

Assistir O Guia do Mochileiro das Galáxias já foi uma experiência “anormal” (ou deveria chamar “fora do normal”?) desde a entrada na sala de projeção: eu e uma amiga dividimos aquela escura e solitária sala com apenas mais dois cidadãos (uma moça em uma ponta, um rapaz na outra da fileira), que provavelmente não faziam idéia de que filme estava em cartaz. A moça não esboçou uma única reação durante toda a projeção - o que me deixou preocupado acerca de uma possível paralisia facial (ou cerebral) - e o rapaz provavelmente considerou pular para a fileira de trás e me espancar cada vez que eu insistia em interromper seu sono com uma gargalhada descontrolada.

E descontrole sobra em "O Guia..". O maior desafio do longa (ou de quem assiste) é saber quando racionalizar e quando simplesmente rir da viagem (do conteúdo, do visual, da trilha sonora). Marcado por questionamentos filosóficos, em busca da resposta para o maior deles (a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo o mais) e fornecendo informações sempre importantes sobre como viajar com segurança pelas galáxias, não há como não se render ao estilão desacerebrado com conteúdo que o filme propõe.

Pena que tenhamos que contar com uma certa falta de ritmo no meio filme, culpa de uma desproposital visita a um país religioso (visita que de desproposital não tem nada, dada a violência com que a religião é atacada). Nada é perfeito. Mas esqueça isso e aproveite todas as seqüências em que Marvin, o desanimado robô dublado por Alan Rickman, mostrar seus olhinhos verdes e caídos e suplicar para que desliguem seus circuitos, poupando-o finalmente daquela vida desgraçada. Se Hollywood começar a produzir mais blockbusters desta espécie, algo pode estar começando a acontecer.

Comentário adicional após revisão em vídeo:

Sou convidado para assistir filmes na casa de um amigo. O filme coincidentemente é O Guia do Mochileiro das Galáxias, baseado no livro homônimo de Douglas Adams que, coincidentemente, eu lia há apenas um dia e que, também por pura coincidência pedira a uma amiga que lesse a interessante descrição do Guia para o peixe-babel, que, coincidência ou não, foi cortada da versão final do filme, mas acabou sendo selecionada e exibida a todos os que assistiram ao filme pela divertida opção de seleção aleatória que acompanha o DVD do filme, chamado de Gerador de Improbabilidade. Não por coincidência, achei melhor desenterrar o texto que havia escrito há mais de seis meses e publicar logo de uma vez. Pena não ter uma Coração Dourado pra calcular quais seriam as chances disso tudo se juntar.

O Guia do Mochileiro das Galáxias
The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, EUA, 2005
Direção: Garth Jennings
Elenco: Sam Rockwell, Anna Chancellor, Warwick Davis, Mos Def, John Malkovich, Zooey Deschanel, Martin Freeman, Dominique Jackson, Bill Nighy

sexta-feira, janeiro 20, 2006

O velho funcionando...

Duas irmãs, uma linda e descolada, a outra feinha e introspectiva. A linda é charmosa, irresponsável, desempregada, insinuante, mão-leve e dependente. Tipo vadia. A feia é bem-sucedida, centrada, educada e controladora. Tipo mãezona. Quando a linda vai pra cama com o novo namorado da feia, eu coloco a mão sobre o rosto e penso “Deus! Eu não vim assistir este tipo de filme”.

Mas fui. E pior e que isso: uma hora e trinta minutos depois estava enxugando as lágrimas. Não sei exatamente quando passei a gostar de Em Seu Lugar, porque se soubesse deveria ter saído antes de ter começado. Agora estou procurando motivos pra ter achado o filme... errr... bonitinho?

Talvez seja a sinceridade que foi adicionada aos poucos enquanto a linda começou a se descobrir em um ambiente totalmente desconhecido dela. Algo no mínimo batido, que também serviu pra irmã feia encontrar seu caminho. Talvez eu esteja só tentando ver isso pra justificar a minha simpatia pelo filme.

O certo é que, pelo menos pra mim, Em Seu Lugar, mesmo repetindo inúmeros clichês e situações que estamos cansados de ver, a ponto de matarmos o final horas antes das luzes se acenderem, se saiu bem, conseguindo ser, pelo menos, simpático ao longo do caminho. E adoro Toni Colleti, a feia.

Em Seu Lugar
In Her Shoes, EUA, 2005
Direção: Curtis Hanson
Elenco: Cameron Diaz, Toni Collette, Anson Mount, Richard Burgi, Candice Azzara, Brooke Smith, Mark Feuerstein Ken Howard

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Intensidade

Não chega a ser o espetáculo que eu esperava, nem mesmo tem o grau de violência que muitos alardearam, mas nem por isso Oldboy se tornou uma decepção. Belo no visual, sádico no roteiro e intenso sempre (seja numa seqüência de luta ou numa de sexo), o filme de Park Chan-wook é um bom exemplo de histeria com bom senso.

Uma exagerada e improvável história de vingança baseada num mangá, o roteiro é esperto enquanto entrega informações aos poucos, deixando o espectador só chegar perto da revelação final quando o próprio filme está lá. E não estamos falando de reviravoltas miraculosas. Surpreende, mas fecha certinho.

Enquanto não chega lá, Oldboy parece se divertir (conseguindo também fazer divertir) com sessões de torturas, sopapos intermináveis (a seqüência em que Oh Dae-su enfrenta sozinho mais de vinte homens é simples, perfeita e acredite, completamente aceitável).

Quando chega lá, não faz ninguém chorar, ou sair pensativo do cinema, ou pensando como o sentimento de vingança por moldar toda uma vida (ainda que ele tenha calibre pra fazer tudo isso). O que de melhor fica é a sensação de duas horas bem gastas com um filme.

Oldboy
Oldoby, Coréia do Sul, 2004
Direção: Park Chan-wook
Elenco: Choi Min-sik, Yoo Ji-tae, Gang Hye-jung, Chi Dae-han, Oh Dal-su Park, Kim Byoung-ok, Lee Seung-shin, Oh Gwang-rok

Também tem alguns apontamentos rápidos sobre a premiação do Globo de Ouro. Coisa rápida, pra tentar ser menos chato que a própria premiação.

  • Foi a primeira vez que conferi a cerimônia, ainda que não pude fazer decentemente (som original, sem as tentativas de tradução simultânea do pessoal contratado pelo SBT, que se esforça) e pareceu mais rapidinha do que o Oscar, menos metida a besta.
  • Bom não ter um anfitrião, é menos um querendo se aparecer e fazer graça. Ponto pra Geena Davis, Hugh Laurie e Steve Carrel, hilários em seus agradecimentos.
  • Não posso ainda chamar de empolgação, mas aumentou minha vontade de conferir Brokeback Mountain.
  • LOST e Desperate Housewives, não vou repetir tudo o que já disse sobre eles por aqui.
  • Rubens Ewald Filho e a mocinha lá formaram a provável pior dupla de apresentação já vista. Faltou, no mínimo, timing na dupla. A certa altura o moço sequer lembrava quais eram os indicados para melhor drama. Pelo menos um comentário dele fez sentido: aquilo foi uma festa gay!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

O mal vence

Resultado do cruzamento de drama de tribunais com filme de terror, O Exorcismo de Emily Rose junta num só o que os dois gêneros têm de mais comum e repetido. Alternando os “protestos!” de defesa e promotoria e demonstrações de possessão demoníaca em alta rotação, a produção promete desde muito cedo ser uma grande bomba.

Mas demora tempo demais para se confirmar como filme ruim, o que acaba contando sempre a seu favor. Ainda que fiquem claras as intenções e rumos que a história vai tomar, há sempre aquela esperança de que numa testemunha ou prova de última hora tudo tome um novo rumo.

E enquanto distrai o espectador, O Exorcismo de Emily Rose se sai bem, cumprindo as promessas de sustos (até consegue fugir dos clichês mais comuns do gênero, como sempre esconder algo atrás de uma porta) e demonstrando a seriedade que um “filme baseado em fatos reais” merece (tem coisa mais insuportável que letreiro final listando o destino de personagens?).

Mas o importante mesmo é se benzer e apegar-se a Deus para suportar o desfecho, quando o drama de tribunal se funde finalmente com o terror, se tornando algo pavoroso (de se assistir, veja bem).

O Exorcismo de Emily Rose
The Exorcism of Emily Rose, EUA, 2005
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Laura Linney, Tom Wilkinson, Campbell Scott, Jennifer Carpenter, Colm Feore, Joshua Close (Jason)

Também tem o Globo de Ouro, que vai ao ar hoje a noite. Infelizmente não vou acompanhar na Sony, com o desejado som original. Terei que me contentar com a tentativa de tradução simultânea do SBT e Rubes Ewald Filho e seu cavanhaque obsceno.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O homem só

Tarefa nada fácil essa de colocar em palavras porque gostei (tanto) do novo filme de Fernando Meirelles. Nunca simpatizei com o projeto, nem com as possibilidades de que se tratasse de um romance dramático arrastado ou uma destas produções-denúncias, muito menos com a áurea de “primeiro filme do diretor brasileiro no estrangeiro”.

Mas O Jardineiro Fiel não é nada disso. Não é um romance chato e arrastado, mas sabe como usar o romance dos protagonistas a seu favor; não é uma produção-denúncia pretensiosa, mas sabe equilibrar aquilo que é (um filme sobre um homem que só descobre a esposa quando já é tarde) com o mundo assustador em que está inserido (um país miserável, seres humanos usados como cobaias, dentre outras coisas).

Ainda conta com a bem-vinda decisão de Meirelles em abandonar legendas, datas, avisos de idas e vindas no tempo. Pode afastar os mais desatentos e preguiçosos, mas ajuda a dar forma a um filme complicado, de sentimentos que afloram aos poucos, sempre contando com um ritmo que alterna momentos tensos e intensos com outros suaves e intimistas.

A direção trabalhosa de Meirelles (aliada a edição de Claire Simpson) quase exagera nos ângulos e enquadramentos “inusitados” ou numa câmera que deixa tonto de tanto tremer e balançar. Mas tudo alcança equilíbrio e harmonia, que só não é atingida por Ralph Fiennes, criando um muro de frieza que, tecnicamente é perfeito ao filme, mas parece negar um pouco de alma ao resultado final.

O Jardineiro Fiel
The Constant Gardener, EUA, 2005
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Daniele Harford, Danny Huston, Hubert Koundé, Richard McCabe

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Exato: no limite...

Filmes com painéis de personagens seguem uma fórmula bem rígida. É quase obrigatório que estes personagens sejam interligados, que haja uma motivação comum entre eles (ou pelo menos núcleos com tais motivações comuns) e que, dentre a diversidade destes, haja algo que seja universal, ou seja, várias diferenças que querem evidenciar as igualdades.

Crash - No Limite, primeira direção de Paul Haggis, segue a cartilha a risca e toma o racismo como tema de ligação entre seus personagens. Para um país em que esta questão é tão complexa e diária (cinco minutos morando nos EUA, e uma amiga deu-me uma lista com cinco justificativas para se odiar negros naquele país), o filme de Haggis poderia ser considerado audacioso e válido.

Isso se ele, também roteirista do filme, não criasse seus personagens e as situações as quais estes personagens são submetidos seguindo uma fórmula tão simples e ingênua. Os bonzinhos são corruptíveis, os malvados podem se regenerar, as vítimas são os inocentes...

Duas horas para evidenciar o óbvio ou, pior do que isso, duas horas usando estereótipos e situações exageradamente coincidentes para afirmar que todos estão sujeitos a cometer algum erro, ou que todos deveriam não julgar, ou que todos têm uma segunda chance, ou que todos têm os seus motivos ou que todo filme pretensioso corre esse risco mesmo.

Enfim, não entendi tudo o que viram neste filme...

Crash - No Limite
Crash, EUA, 2005
Direção: Paul Haggis
Elenco: Karina Arroyave, Dato Bakhtadze, Sandra Bullock, Don Cheadle, Art Chudabala, Tony Danza, Keith David, Loretta Devine

Todas as formas do amor, versão massinha de modelar

Fico pensando como deve ficar Mike Johnson dividindo a direção de A Noiva-Cadáver com Tim Burton. Ter um nome de peso, vindo na frente (com direito a ‘s no título e tudo) do seu, num filme que tem a cara deste nome de peso... Pode ser uma maneira de começar. Mas também pode ser uma boa maneira de não ser ninguém.

Ou é apenas uma preocupação minha mesmo. Preocupação que que parecer até ser mais interessante do que o filme, o que não é verdade. A Noiva-Cadáver é antes de tudo, um tapa na cara dos grandes estúdios animadinhos com a animação digital (errrrr), que parecem esquecer que uma animação (assim como qualquer filme), depende menos da forma do que conteúdo.

Este aqui tem os dois. Impressiona pelo visual encantador, diverte com a leveza de uma história que está longe de ser leve e tola (mundo dos mortos dos vivos, casamento por interesse) e deixa um sorrisão no rosto quando termina por ter sido suficientemente curto e bom.

Pena que seja só isso, curto e bom. Ás vezes, o espetacular não é realmente necessário.

A Noiva-Cadáver
Corpse Bride, EUA, 2005
Direção: Mike Johson e Tim Burton (ah, deixa o nome do cara vir antes, vai!)
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Paul Whitehouse

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A margem

A complexidade em torno das armas ficou provada há pouco menos de dois meses, aqui mesmo em nosso país, em que a discussão tomou um rumo que no final, apenas serviu aos interesses de poucos. O Senhor das Armas é mais ou menos a mesma coisa: apresenta o assunto, quer levar a discussão, apresenta fatos (nada imparciais, é verdade) mas parece temer cair no cerne da questão.

Pode ser, sim, chamado de filme corajoso. Mas são poucas as vezes que ele ataca os grandes vilões do comércio mundial de armas. Durante toda a sua duração, o filme prefere se focar nos contrabandistas, como se estes fossem os únicos interessados e responsáveis pelo armamento de qualquer milícia ou grupo separatista que nasça num bairro vizinho.

Como um filme que prefere se ater a este único homem, que articula e promove as trocas de armamento e munição, O Senhor das Armas se sai bem, foge de algumas armadilhas mas também corre direto (com direito a minutos de predição por nossa parte) pra outras. Como um filme que deveria fazer perguntas mais diretas, ele leva muito tempo. Todo o tempo que tem, aliás, já que é apenas antes dos créditos subirem, com o uso de letreiros que ele aponta os 5 países campeões na fabricação de armas, todos integrantes do conselho de segurança das Nações Unidas.

O Senhor das Armas
Lord of War, EUA, 2005
Direção: Andrew Niccol
Elenco: Nicolas Cage, Bridget Moynahan, Jared Leto, Shake Tukhmanyan, Jean-Pierre Nshanian, Jasper Lenz, Kobus Marx, Stephan de Abreu

terça-feira, janeiro 10, 2006

Regra #1: chame a atenção

A idéia dos “penetras bons de bico” (sempre me surpreendendo!) que invadem festas de casamento, se tornam os centros das atenções e levam pra cama as solteiras mais deslumbrantes do salão é boa, divertida. Boa trilha sonora, edição esperta e tiradas rápidas o suficiente pra deixar um sorriso bobo no rosto (ainda que nenhuma gargalhada) e dois atores com um bom timing pra fazer graça (principalmente juntos) daria a comédia que fiquei esperando o ano todo. Pena que rendeu uma seqüência só, que acaba antes de 5 minutos de filme.

Assim que termina o clip extended version da animadinha Shout você já começa a ouvir aquela voz baixa porém, constante, lhe avisando que o filme vai afundar, que ninguém ali terá competência pra tirar proveito da boa idéia, que inevitavelmente serão feitos apelos ao amor verdadeiro, aos bons costumes, a um maldito desfecho numa cerimônia de casamento (com direito a aplausos, suspiros e minha gastrite atacando), que nem a presença do comediante-salva-comédia-meia-boca da vez, Will Farrell, conseguirá fazer diferença.

O que sobra? Nada que você já não tenha visto em qualquer outra comédia americana de sucesso (estrondoso, aliás), além do sorriso encantador de Rachel McAdams. Há tanto “bom-mocismo” no desenrolar e desfecho da trama que é fácil gargalhar ao lembrar da pior e mais grosseira piada de qualquer American Pie.

Penetras Bons de Bico
Wedding Crashers, EUA, 2005
Direção: David Dobkin
Elenco: Owen Wilson, Vince Vaughn, Will Ferrell, Rachel McAdams, Ellen Albertini Dow, Jennifer Alden, Summer Altice

PS: Vale lembrar, no entanto, que a dica principal do filme para se transformar num bicão de sucesso (ser o centro das atenções), funciona em qualquer situação. Eu testei inclusive. Talvez o filme não tenha sido de uma total perda de tempo...

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Falando com violência

Tratar de violência não é fácil. Tratar de violência sem ser moralista e bom mo�o também não é fácil. Tratar de violência com violência, apelo visual e ainda conseguir fazer com que o cidadão que esteja “apenas” assistindo a um filme seja tomado por sentimentos e sensações e menos pela discussão racional, cheia de valores morais e éticos sobre a própria violência é algo que poucos conseguirão fazer.

David Cronenberg faz isso com Marcas da Violência. E parece fazer com um pés nas costas. Começa devagar, com a família feliz e perfeita perturbada no meio da noite com o eterno clichê da caçula que vê monstros. É doce e sensível.

O tempo passa e apenas a doçura muda. A sensibilidade de Cronenberg continua aguçada e sempre apontando para direções que te levam não a discutir ou pensar sobre a violência. Quando o filme termina - num corte seco e perfeito, talvez o melhor final que eu tenha visto este ano - e recobramos a racionalidade, a única coisa que realmente fica é a percepção de que quando o “mocinho” apontava a arma para o “vilão” num momento de hesitação, só conseguíamos pensar “Não vai puxar a porra do gatilho???”.

Marcas da Violência (pode subir facinho, facinho!)
A History of Violence, EUA, 2005
Direção: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill

Dimensão alternativa

Nina demonstra-se muito corajoso ao tomar a empreitada de levar um filme protagonizado por uma personagem complexa e nada simpática e por não contar com uma história, uma narrativa bem definida. E ainda tem a opção visual mista entre uma realidade dark e escura e desenhos de traços fortes, violentos e incolores.

Algo que resulta num filme interessante, um pouco deslocado – no sentido de incomum mesmo – na atual produção nacional, que leva a alguns momentos de sensações – medo, dúvida, angústia, reflexão – e outros de pura sonolência mesmo.

A pretensão aqui pesou dos dois lados: joga Nina para um filme acima da média porque contou com a ousadia de seus realizadores, mas também o segura por justamente não haver um destino bem definido para a protagonista. Um elemento equilibrador, pena que o peso foi apenas médio.

Nina
Nina, Brasil, 2004
Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Guta Stresser, Myriam Muniz, Sabrina Greve, Luíza Mariani, Juliana Galdino, Milhem Cortaz

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Exagero

Peter Jackson já havia provado sua insanidade mental quando levou para as telas a trilogia O Senhor dos Anéis. A grandiosidade do mundo e da história dos filmes (algo herdado dos livros), porém, mascarava em meio aos inúmeros acertos do diretor o que seria seu pior defeito: o exagero.

Em King Kong, um filme com roteiro que pode ser resumido em meia linha, sobra espaço e tempo suficientes para confirmar que Jackson depende mais do material que tem em mãos do que de suas próprias capacidades e qualidades como cineasta.

Não se limitando a apenas contar a história do gorila gigante apaixonado por uma mulher, Jackson cria um filme irregular e insuportavelmente longo, que se perde nas tentativas de ser adulto, espetacular, romântico e um grande sucesso de bilheteria.

O resultado é uma primeira hora de sono, toda animadinha, querendo ser um filme de 80 anos atrás, que tem Jack Black pra aliviar, mas tempo demais pra bocejar. Segue uma segunda hora com ação ininterrupta, mas tão cômica quanto a hora anterior, com intermináveis seqüências de ação, que se sucedem enquanto se anulam e só ganham algum espaço na memória do espectador com o interessante ataque dos vermes vitaminados. A última hora acerta: consegue equilibrar ação, romance e drama, parecendo durar apenas vinte minutos. Mas nada que salve o filme das duas horas anteriores.

Memorável pela atuação de Kong (tão perfeito que passa despercebido, como se realmente fosse de verdade, e não efeito especial) e por tornar crível o romance entre os dois protagonistas. Decepcionante quando não sabe reconhecer suas limitações. O respeito que Jackson teve por J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis deveria ter se convertido em respeito ao espectador que, ás vezes, quer apenas um bom filme de aventura, não mudar sua vida.

King Kong
King Kong, EUA, 2005
Direção: Peter Jackson
Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Andy Serkis, Jamie Bell, Kyle Chandler

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Regiões abissais

É um filme de Wes Anderson. A simples presença de Owen Wilson poderia atestar isso. Mas cada fotograma, personagem excêntrico, piadinha traiçoeira e diálogo nonsense silencioso ainda grita que é uma digna produção de Wes Anderson.

Pena que apenas digna das capacidades do diretor e roteirista, mas nunca totalmente usufruindo desta capacidade. A Vida Marinha de Steve Zissou leva muito tempo para mostrar ao seu espectador pra onde está indo. Algo que só funciona num filme quando não fica aquela impressão de barco a deriva (péssimo trocadilho, eu sei).

A relação pai e filho entre os personagens de Bill Murray e Owen Wilson, no entanto, parece ser o principal interesse do filme, que como qualquer outro filme de Anderson quer sempre contar ou mostrar muito. O que neste filme acabou ficando demais. Outro ponto que incomoda é a impressão de que a escolha do diretor pelos mesmos atores tem resultado na repetição de alguns personagens. Owen e Anjelica Huston (já conseguiram identificar o sexo “dela”?) são um exemplo disso.

Mas se o filme todo não consegue funcionar, alguns momentos isolados beiram o delicioso. Principalmente aqueles em que Murray faz o que sabe fazer de melhor (ainda que repita em todo filme): cara de esnobe enquanto dá uma de bobo. O encontro final também é memorável. Detalhes que salvam o filme de naufragar. Segundo trocadilho besta. Paro por aqui.

A Vida Marinha de Steve Zissou
The Life Aquatic with Steve Zissou, EUA, 2004.
Direção: Wes Anderson
Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Michael Gambon, Noah Taylor