sexta-feira, agosto 05, 2005

Donas de casa desesperadas




Qualquer mulher segura de si dispensa os testezinhos do site oficial do seriado Desperate Housewives para saber com qual personagem se identifica mais. Cada uma delas dona de uma personalidade forte e muito bem definida por este primeiro ano, Bree, Gabrielle, Susan e Lynette tomaram de assalto a televisão norte-americana (e todo o seu puritanismo) e levou um programa arriscado de humor-negro e crítica social ao grande hit da temporada 2004/2005. Mais ainda do que ban-ban-bans como LOST.

Como no meu caso e na maioria dos homens, fica complicado se identificar com qualquer mulher casada que se aproxima dos trinta anos de idade, é impossível não olhar para aquelas personagens buscando a imagem da mãe, da esposa ou da namorada. A Bree, por exemplo, é a versão classe média sofisticada da minha mãe: apaixonada e devotada a família, a religião, aos valores éticos e morais. De brinde, também é controladora, intransigente e emocionalmente instável.

Pertenço, portanto, ao grupo de fora. E não ser uma delas, no caso de Desperate Housewives, contribui mais do que identificação que poderia haver para com as personagens. Não é o tipo de programa com role models a serem seguidos, o que nos deixa mais livres para decidir chegar por si as conclusões. São personagens pela qual é impossível não desenvolver afeição, carinho ou pena sem que também precisamos nos cegar aos seus defeitos. E ser do grupo de fora é caminhar entre a admiração e irritação com cada uma delas.

A jovem e decidida Gabrielle, com um casamento de interesses, um caso com o jardineiro teen e gostosão e uma confusão de sentimentos em relação ao marido cabe as maiores irresponsabilidades, principalmente por não ter filhos (ainda). Susan (Terri Hatcher, a Lois, lembra?) é a fraca, engraçada e quase um estereótipo pastelão dentro do programa. Mas sua personagem cresce muito durante a temporada e rende ótimos momentos, lembrando a Charlote de Sex and the City. Lynette é a mulher que sacrificou a carreira pela família, tem quatro filhos-pestes e um marido dedicado, o que não a impede de ter neuroses como qualquer outra mulher. Ponto para o programa já que seria fácil colocar ela como uma santa conformada com sua vida por um marido fiel e dedicado.

Mas é Bree a personagem que rouba o show. Irritante no começo, apaixonante no final, é a mulher que mais precisa de ajuda, justamente pelos seus padrões bem definidos e seguidos a risca. E neste primeiro ano a pobrezinha foi judiada: descobriu que o marido tinha um caso com a vizinha porque ela não o satisfazia sexualmente, para logo em seguida descobrir que ele tem taras SM; não consegue convencer a filha de que sexo antes do casamento é errado e quase surta (ou melhor, surta, num dos melhores episódios da temporada) quando o filho se declara gay.

Uma lista que não tem nada de assustador, pelo menos pra quem não surta quando houve as palavras sexo, gay ou traição, mas que faz os cabelos lisos e sistematicamente arrumados de Bree Van de Kamp ficarem em pé. Esta dualidade entre o mundo real e o mundo sonhado da mulher mãe de família é a marca principal do programa, que obviamente, tem causado protestos com os recatados órgãos e associações de apoio a família americanas (grandes responsáveis, ao meu ver, pela destruição de muitas famílias).

Relação extra-conjugal com o jardineiro adolescente, suicídio (toda a primeira temporada é narrada pela defunta Mary Alice, que esconde um mistério só resolvido no último episódio), o sexo não-convencional num casamento, homossexualidade (o programa ganhou vários oh's quando mostrou o coming out do filho de Bree e do jardineiro (outro jardineiro) num beijo numa piscina) só fazem as atenções se voltarem ainda mais para um programa que sabe falar da rotina com acidez e humor negro e inteligência. E ainda que pareça tudo muito distante de nós brasileiros, principalmente no humor, tudo é só uma questão de adaptação.

Pode não ser pop como LOST, e provavelmente nem quer. Desperate Housewives é como Sex and the City: um programa de horror para a grande maioria, que talvez prefira não ver mulheres inteligentes tomando as rédeas. Supere o susto inicial e deixe o desespero tomar conta.

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