terça-feira, agosto 09, 2005

Bola digital

Como não se empolgar com a excitação em torno dos filmes de Stephen Chow? Kung-fu Futebol Clube (quatro anos atrasados) e Kung-Fusão, adjetivados de “brilhantes” e “excepcionais” e quebrando recordes de bilheterias pareciam a minha grande chance de voltar a rir de verdade em um cinema. Conferir os dois filmes frustrou meus planos, ainda que os filmes não possam ser classificados como decepcionantes. Difícil mesmo é entender exatamente o que eles são.

Ao contrário do que afirmam, para começar, não são filmes de comédia. São filmes de ação, no melhor estilo (irritante, pelo menos pra mim) flexível e rapidinho de Jackie Chan (estranhamente creditado numa das músicas de Kung-Fu Futebol Clube, será mesmo O Jackie Chan?), turbinado nos efeitos Matrix, que não vê outra solução senão apelar para saídas cômicas que justifiquem tantas acrobacias. Durante todo o filme, fica a dúvida se Chow é um cara legal ou um grande cara de pau.

Com um acerto aqui e outro ali, ele consegue segurar seus filmes com ritmo, no caso de Shaolin Soccer (convenhamos, se o título original já era tonto, o nacional ficou ridículo) ainda melhor que Kung-Fusão (preciso falar alguma coisa?). Coloca algumas referências do cinemão, não tem medo de arriscar um número musical – que de tão deslocado fica hilário –, tem um interesse inusitado pelo nu masculino (notaram que ele sempre arranja um jeito de arrancar a roupa de um homem em cena?) e realmente acredita que sua missão é divertir.

Pra isso Chow topa até cometer alguns crimes. Os roteiros, pra começar, são grandes bobagens. Ainda que tudo tenha a maior cara de homenagem/gozação (principalmente em Kung-Fusão), não seria pedir demais uma história menos forçada, que não quebrasse suas próprias regras. No filme de futebol (que se passa no campo, mas não tem nada de futebol) o kung-fu foi usado primeiramente pelo time de Chow (que também estrela os filmes), mas misteriosamente o time da final do campeonato aparece sabendo tudo sobre a técnica! Em Kung-Fusão, numa metáfora tão desaforada que sequer deveria ser chamada de metáfora, o herói vira um mestre de artes marciais, assim, como a borboleta que sai do casulo, simples assim. Pior ainda quando ele se usa dos clichês cinematográficos mais sacados assim, como quem faz dobradinha para o almoço com o Primeiro Ministro Inglês.

Esta dúvida cruel perdura durante toda a duração do filme. Dos dois filmes. Mas quando Chow resolve terminar sua aventura futebolística ao som óbvio do sucesso dos anos Kung-Fu Fighting, não resta dúvidas: o rapaz é ingênuo mesmo. É um convidado humilde que ganhou o direito de participar de uma mega-festa black tie e fica olhando alguém fazer primeiro pra saber o que fazer. Algo que não o torna o grande vilão da história, mas que não o exime da responsabilidade por seus filmes serem apenas bobagens divertidas.

Kung-Fu Futebol Clube
Siu Lam Juk Kau, China/Hong Kong, 2001.
Direção: Stephen Chow
Elenco: Stephen Chow, Vicki Zhao, Yin Tse, Law Kar-Ying, Kwok Kuen Chan

Kung-Fusão
Gong Fu, China, 2004.
Direção: Stepehn Chow
Elenco: Stephen Chow, Leung Siu Lung, Yuen Wah, Yuen Qiu, Dong Zhi Hua, Chiu Chi Ling

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