quarta-feira, agosto 24, 2005

Mad Mel

Do tempo em que Mel Gibson era um jovem e bonito rapaz, livre de seus clássicos trejeitos interpretativos e (aparentemente) sem a intenção de usar o cinema para levar uma mensagem de fé às salas de projeção de todo o mundo (ou, ao meu ver, cometer o maior atentado feito em nome de algum deus dos últimos tempos, que só perde para a guerra do Bush), Mad Max é menos um filme sobre violência, como gostam de afirmar, e mais um filme sobre como esta violência começou a chamar a atenção, começou a ficar "bonita" na telona.

Violência e maldade. Maldade por pura maldade, personificada nas gangues de auto-estradas, e a maldade amparada pela bondade legitimada pela vingança, personificada no bom - policial - competente - que- perde - a - família - barbaramente. Com menos violência explícita do que qualquer nascido depois do último filme da trilogia ter sido produzido (1985) possa esperar – como nos insuportáveis filmes que tanto querem impressionar hoje – Mad Max não parece estar preocupado com qualquer leitura que possa ser feita. É só um filme sobre mocinhos atrás de bandidos malvados.

O primeiro, dirigido por George Miller em 1979, ainda perde algum tempo justificando toda a raiva do protagonista Max - e porque se tornará o Mad - se vingando dos assassinos de sua família (imortalizada na sequência do sapatinho do moleque rolando no asfalto). Um desperdício de tempo que Miller corrigiu no filme seguinte, rodado em 1981, em que sequer dá boas justificativas para as atitudes dos personagens: são todos insanos, desesperados e cada um merece viver menos que o outro.

Tanto que destrói o mundo civilizado em cinco minutos narrados em off logo no começo para que o visual pós-apocalíptico se justifique. Com melhor ritmo, mais ação e adrenalina, e menos preocupação com “porquês” e “senãos”, Mad Max 2 se aproxima mais de pesadelo do que o primeiro, mas também faz rir bastante. Talvez poucos filmes consigam representar em imagens toda essa época perdida de reviravoltas e confusão (na política, na música, na literatura, no cinema, no sexo, que juro tentar entender) e tão poucos cumpram a função de aliviar as neuras de quem é doido pra socar os bandidos que vê na TV (ou na porta do carro).

Mad Max
Mad Max, Austrália, 1979.
Direção: George Miller
Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley

Mad Max 2 - A Caçada Continua
Mad Max 2, Austrália, 1981.
Direção: George Miller
Elenco: Mel Gibson, Bruce Spence, Michael Preston, Max Phipps, Vernon Wells

Também tem o terceiro, rodado em 1985, o Além da Cúpula do Trovão, que ninguém do grupinho que conferia os filmes teve coragem de assistir mesmo. Ainda mais quando confirmaram que a música We Don't Need Another Hero (nem sei se é esse o nome da música de Tina Turner, mas esse refrão ficou memorável graças as chamadas criadas pela Globo) não toca durante o filme, desisti também...

segunda-feira, agosto 22, 2005

Diversão garantida... por meia hora

A vontade de falar (ou escrever) sobre Madagascar é tão grande quanto a vontade que eu tinha de ver Madagascar, tamanha a empolgação com que o filme foi recebido. Segundo grande senão da geração de animações por computadores da Dreamworks – não assisti até hoje O Espanta Tubarões – o filme mostra que é só uma questão de tempo até a falta de criatividade e burocracia chegar ao mundo digital também, assim como chegou ao de papel e lápis.

Uma aventura frustrada que deveria ter preferido ficar no campo da simples comédia de situações, Madagascar quis ser demais. Foi pra selva, evocou os instintos animais, abusou das piadas físicas, se rendeu a tentação de bichinhos fofinhos e, por fim, caiu no desespero de terminar tudo muito rápido. Nem a ótima meia hora inicial ou as referências cinematográficas perdidas pelo meio do filme conseguem segurar por muito tempo o sorriso forçado na cara.

E é apenas nesta nessa meia hora inicial que há mais o que falar (bem) sobre o filme, graças a presença dos hilários pingüins e seus planos perfeitos para fugirem do mundo não natural do zoológico. A equipe de produção de Madagascar deve ter sofrido - é só uma suposição - uma crise quando perceberam que a história destes pingüins seria muito mais interessante e divertida do que o quarteto principal, ainda mais com a chatice da girafa hipocondríaca, que só não é mais chata do que os lêmures e seu rei boboca. Daí a boboquice contaminar todo restante do filme foi questão de minutos.

Pior para a Dreamworks, que até agora só fez dois Shreks bons de verdade, e muito melhor para a concorrente Pixar, que não errou um filme e anda até esnobando estúdios que querem distribuir seus filmes.

Madagascar
Madagascar, EUA, 2005.
Direção: Eric Darnell e Tom McGrath
Elenco: Ben Stiller, Chris Rock, David Schwimmer, Jada Pinkett Smith, Sacha Baron Cohen (mas só pros sortudos que puderam acompanhar o filme legendado)

segunda-feira, agosto 15, 2005

Dando um desconto

Quarteto Fantástico é um filme desconto. Você dá um desconto por ser um filme de super-heróis e conseqüentemente, refém de uma determinada fórmula; dá outro desconto por ser baseado em HQs, e por mais que você já esteja de saco cheio disso, uma vez ou outra dá um bom filme; um terceiro desconto é dado por ser um filme assumidamente diversão, sem pretensões bíblicas, um típico Sessão da Tarde, como já foi chamado; e o desconto final, de uns 50%, você dá porque é o primeiro do que poderá ser uma série, tem que desenvolver personagens, tem que ter uns porquês, tem que ter gancho...

Você dá tanto desconto – quase todos “justificáveis” – enquanto Quarteto Fantástico vai passando que no final você acaba percebendo que assistiu a um filme pela qual não pagou. E pagou muito, muito caro. No desespero de ser um filme livre de grandes exigências, Tim Story e o roteiro de Michael France e Mark Barnathan exageram nas tentativas de fazer graça. Enquanto caminha para a metade da projeção, percorre uma linha tênue entre engraçadinho e patético. Depois disso, descamba para um lado só, e não é para o melhor dos lados.

Herança dos quadrinhos? Bela desculpa. Assim como todas as outras desculpas que tentam fazer do filme algo menos exigível. E o pior de tudo, é que como um produto pouco exigível, Quarteto Fantástico está perfeito. Um caso estranho de bem-sucedido filme porcaria. E que parece agradar bastante, a contar pela empolgação de quem sai da sala com um sorrisão no rosto.

Porém, se você não consegue ignorar furos horríveis no roteiro – o genial Reed foi até o espaço pra pegar a tal nuvem e cinco minutos depois constrói uma máquina capaz de fazer a mesma coisa –, não consegue rir das piadinhas óbvias, não consegue acreditar num maldito homem de pedra (juro que tentei!) e não consegue se emocionar cada vez que a música (horrível, aliás) sobe e um personagem se redime, procure aquela versão maldita de Roger Corman (1994), que pelo menos não usa a desculpa esfarrapada de “filme diversão”.

Quarteto Fantástico
Fantastic Four, EUA, 2005.
Direção: Tim Story
Elenco: Ioan Gruffudd, Michael Chiklis, Jessica Alba, Chris Evans, Julian McMahon

Também tem o desespero de descobrir que a única cópia do filme que veio para minha querida cidade é dublada. Será que isso poderia ter alguma influência sobre a minha decepção com o filme? Nããããaooo....

quarta-feira, agosto 10, 2005

Filme de Amor e filme de Sexo

Separados por 22 anos, dois filmes de momentos diferentes do cinema nacional, feitos para públicos diferentes, com duas intenções totalmente diferentes. Como Fazer um Filme de Amor (2004), de José Roberto Torero - como o próprio título sugere - mostra como fazer (e também ser) um filme romântico padrão. Já Luz Del Fuego, de David Neves (1982) - também denunciado pelo título óbvio - é a história real de uma mulher sexy e despudorada e suas jogadas que a colocaram como uma das maiores vedetes dos 50 e 60 no Brasil. Fácil apontar: um filme de amor e um filme de sexo.

O intencional, no entanto, toma outros rumos enquanto cada um dos dois filmes se desenrola, e tanto para uma como para a outra produção, estamos ao final pensando muito sobre como os filmes são aquilo que não pareciam ser antes de começar (hein?!). Pior para Como Fazer um Filme de Amor, já que é ele quem desaponta se transformando num filminho fraco, aquém de suas possibilidades e assumidamente interesseiro. Justamente o que parecia ser o mais fácil.

Misturar um exercício metalingüístico a clichês de um gênero definido e popular como a comédia romântica, apesar de não ser original, era uma boa idéia. Construir o filme escolhendo desde os personagens até as situações clichês era uma boa idéia. Um narrador engraçadinho sugerindo, consertando e apurrinhando os personagens também era uma boa idéia. Mas Como Fazer um Filme de Amor é mais uma boa idéia do que um bom filme.

Faltou ao diretor abraçar e acreditar mais na sua idéia, melhorar o timing de suas piadas, gritar para alguns atores entrarem no clima, poxa! Marisa Orth, afetadíssima, é a um única que agrada de verdade, assume o estereótipo que sua personagem má pede e parece encaixada no filme. O convite a Paulo José para o papel de narrador também é equivocado já que demora para o ator ser simpático com seu vozeirão meio baba ovo.

Salvando-se algumas piadas pelo meio do caminho, como a seqüência da primeira vez do casal e a falação do narrador enquanto os créditos sobem, Como Fazer um Filme de Amor passa longe de ser um filme de amor. No máximo uma enganação comercial simpática. O narrador diz ao final que todos os filmes, inclusive este, não passam de tentativas para tirar o dinheiro do público. Outra piada que não teve a menor graça.

Já Luz Del Fuego vem lá dos longínquos anos 80, em que a nudez parecia palavra de ordem e que tenho como missão, entender o que seu período de produção cinematográfica significou. A abertura, com Lucélia Santos nua, trouxe rápido a afirmação que passei minha infância e adolescência ouvindo: filme nacional só tem putaria e mulher pelada. Luz Del Fuego confirma isso, mas de uma maneira que me pegou de surpresa.

A nudez da personagem título interpretada por Lucélia Santos - vestida em três ou quatro cenas no máximo - ganha com o tempo a justificativa naturalista. Mas é ao redor desta nudez que cresce o que há de limpo e belo no filme, e fora dele também. Atacando a falta de pudor de Luz aparecem os grupos de proteção a família, de proteção aos valores, de proteção aos animais (!) em programas no melhor estilo Superpop.

Se a parte da “mulher pelada” em Luz Del Fuego já tem um grande senão, a parte da “putaria” acaba se tornando o grande senão. O sexo, algo no mínimo esperado com tantos corpos a mostra, só aparece quando há um casal apaixonado. Forçado? Pode ser, Luz não era santa, nem queria ser. Mas estava rodeado de santos. Políticos, delegados e autoridades, senhoras de família e imprensa, todos os seguimentos que representam as instituições deste país são justamente a grande putaria. De antes e de hoje.

Mesmo sendo de outra época, como não traçar um paralelo entre toda a sujeira do filme e toda a sujeira que estampa os jornais hoje, em que acordos são “descobertos” e expostos como se fossem uma grande novidade? O mundo bonito e engravatado, representante dos valores, usa os discursos que todos sabem ser uma grande bobagem, mas todos se horrorizam e colocam a culpa no sexo e na nudez.

Conclusão: um susto. O filme de amor se revela uma tentativa frustrada de brincar com a chatice de um gênero (caindo na mesma chatice) e o filme de sexo uma crítica social que não envelheceu nada.

Como Fazer um Filme de Amor
Idem, Brasil, 2004.
Direção: José Roberto Torero
Elenco: Denise Fraga, Cássio Gabus Mendes, Marisa Orth, André Abujamra, Paulo José, Ana Lúcia Torre

Luz Del Fuego
Idem, Brasil, 1982.
Direção: David Neves
Elenco: Lucélia Santos, Joel Barcellos, Ivan Cândido, Walmor Chagas, Renato Coutinho, José de Abreu, Celso Faria, Wilson Grey

Também tem o novo cd do System of a Down, Mezmerize, que me atrapalhou por quase uma hora a escrever o texto acima tamanho o susto que causou: mas que zona é aquela?! Não sei, mas não ouço outra coias desde então.

terça-feira, agosto 09, 2005

Bola digital

Como não se empolgar com a excitação em torno dos filmes de Stephen Chow? Kung-fu Futebol Clube (quatro anos atrasados) e Kung-Fusão, adjetivados de “brilhantes” e “excepcionais” e quebrando recordes de bilheterias pareciam a minha grande chance de voltar a rir de verdade em um cinema. Conferir os dois filmes frustrou meus planos, ainda que os filmes não possam ser classificados como decepcionantes. Difícil mesmo é entender exatamente o que eles são.

Ao contrário do que afirmam, para começar, não são filmes de comédia. São filmes de ação, no melhor estilo (irritante, pelo menos pra mim) flexível e rapidinho de Jackie Chan (estranhamente creditado numa das músicas de Kung-Fu Futebol Clube, será mesmo O Jackie Chan?), turbinado nos efeitos Matrix, que não vê outra solução senão apelar para saídas cômicas que justifiquem tantas acrobacias. Durante todo o filme, fica a dúvida se Chow é um cara legal ou um grande cara de pau.

Com um acerto aqui e outro ali, ele consegue segurar seus filmes com ritmo, no caso de Shaolin Soccer (convenhamos, se o título original já era tonto, o nacional ficou ridículo) ainda melhor que Kung-Fusão (preciso falar alguma coisa?). Coloca algumas referências do cinemão, não tem medo de arriscar um número musical – que de tão deslocado fica hilário –, tem um interesse inusitado pelo nu masculino (notaram que ele sempre arranja um jeito de arrancar a roupa de um homem em cena?) e realmente acredita que sua missão é divertir.

Pra isso Chow topa até cometer alguns crimes. Os roteiros, pra começar, são grandes bobagens. Ainda que tudo tenha a maior cara de homenagem/gozação (principalmente em Kung-Fusão), não seria pedir demais uma história menos forçada, que não quebrasse suas próprias regras. No filme de futebol (que se passa no campo, mas não tem nada de futebol) o kung-fu foi usado primeiramente pelo time de Chow (que também estrela os filmes), mas misteriosamente o time da final do campeonato aparece sabendo tudo sobre a técnica! Em Kung-Fusão, numa metáfora tão desaforada que sequer deveria ser chamada de metáfora, o herói vira um mestre de artes marciais, assim, como a borboleta que sai do casulo, simples assim. Pior ainda quando ele se usa dos clichês cinematográficos mais sacados assim, como quem faz dobradinha para o almoço com o Primeiro Ministro Inglês.

Esta dúvida cruel perdura durante toda a duração do filme. Dos dois filmes. Mas quando Chow resolve terminar sua aventura futebolística ao som óbvio do sucesso dos anos Kung-Fu Fighting, não resta dúvidas: o rapaz é ingênuo mesmo. É um convidado humilde que ganhou o direito de participar de uma mega-festa black tie e fica olhando alguém fazer primeiro pra saber o que fazer. Algo que não o torna o grande vilão da história, mas que não o exime da responsabilidade por seus filmes serem apenas bobagens divertidas.

Kung-Fu Futebol Clube
Siu Lam Juk Kau, China/Hong Kong, 2001.
Direção: Stephen Chow
Elenco: Stephen Chow, Vicki Zhao, Yin Tse, Law Kar-Ying, Kwok Kuen Chan

Kung-Fusão
Gong Fu, China, 2004.
Direção: Stepehn Chow
Elenco: Stephen Chow, Leung Siu Lung, Yuen Wah, Yuen Qiu, Dong Zhi Hua, Chiu Chi Ling

segunda-feira, agosto 08, 2005

A oitava maravilha do mundo

Numa manobra inédita e arriscada, assisti a um filme original antes que o remake chegasse aos cinemas. Programado para o final do ano, King Kong será “reimaginado” (adoro a criatividade desse povo... e a cara de pau também) por Peter Jackson, depois de levar alguns queixos ao chão (o meu ainda está lá) com a trilogia O Senhor dos Anéis. Enquanto o filme não chega e eu não consigo uma resposta para a pergunta “Por que todo diretor que ganha um Oscar faz um remake?”, movi meus pauzinhos e com a ajuda de alguns cliques, finalmente conferi o clássico de 1933.

A justificativa para minha cara de bobo enquanto assistia ao filme era pensar como ele é abusado. Sem sequer imaginar que um dia seria possível animar qualquer ser com realismo impressionante, a produção de King Kong não se intimidou com as deficiências do stop motion em início de carreira e não economizou nos efeitos especiais. Uma coragem justificada tão somente por ser algo novo. Hoje alguém só toparia efeitos toscos se tem tal intenção ou se é maluco.

O que mais gosto nestes filmes antigos – e também aquilo que mais me irrita – é o jeitão arrogante. No caso de King Kong, eles sabiam que estavam fazendo algo que iria derrubar o público. O discurso do egocêntrico diretor de cinema que viaja em busca de aventura sobre o domínio do homem – branco e civilizado – sobre todo o resto – tribos africanas, gorilas gigantescos, dinossauros – está para a intenção do filme de ser grandioso sobre todos os demais.

Como não conheço nada da história do cinema deste período e este é provavelmente o filme mais velho que assisti (algo não confirmado, mas que também não faz muita diferença) é provável que o que acabo de falar é uma grande bobagem. Ainda mais porque a pretensão aqui ajuda mais do que atrapalha, ainda que um pouco menos de aventuras na Ilha da Caveira teriam dado mais ritmo ao filme.

King Kong
King Kong, EUA, 1933.
Direção: Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack
Elenco: Fay Wray, Robert Armstrong, Bruce Cabot, Frank Reicher, Sam Hardy, Noble Johnson

Também tem dores localizadas (garganta, panturilha, coxa, ombros e pescoço) resultado do show da banda IRA que rolou numa cidade aqui perto. Trezentos quilômetros, três meses esperando e muita vontade contida de assistir algo bom resultaram numa noite dolorida, mas memorável. É tolice, eu sei, mas morar no interior não é fácil...

sexta-feira, agosto 05, 2005

Donas de casa desesperadas




Qualquer mulher segura de si dispensa os testezinhos do site oficial do seriado Desperate Housewives para saber com qual personagem se identifica mais. Cada uma delas dona de uma personalidade forte e muito bem definida por este primeiro ano, Bree, Gabrielle, Susan e Lynette tomaram de assalto a televisão norte-americana (e todo o seu puritanismo) e levou um programa arriscado de humor-negro e crítica social ao grande hit da temporada 2004/2005. Mais ainda do que ban-ban-bans como LOST.

Como no meu caso e na maioria dos homens, fica complicado se identificar com qualquer mulher casada que se aproxima dos trinta anos de idade, é impossível não olhar para aquelas personagens buscando a imagem da mãe, da esposa ou da namorada. A Bree, por exemplo, é a versão classe média sofisticada da minha mãe: apaixonada e devotada a família, a religião, aos valores éticos e morais. De brinde, também é controladora, intransigente e emocionalmente instável.

Pertenço, portanto, ao grupo de fora. E não ser uma delas, no caso de Desperate Housewives, contribui mais do que identificação que poderia haver para com as personagens. Não é o tipo de programa com role models a serem seguidos, o que nos deixa mais livres para decidir chegar por si as conclusões. São personagens pela qual é impossível não desenvolver afeição, carinho ou pena sem que também precisamos nos cegar aos seus defeitos. E ser do grupo de fora é caminhar entre a admiração e irritação com cada uma delas.

A jovem e decidida Gabrielle, com um casamento de interesses, um caso com o jardineiro teen e gostosão e uma confusão de sentimentos em relação ao marido cabe as maiores irresponsabilidades, principalmente por não ter filhos (ainda). Susan (Terri Hatcher, a Lois, lembra?) é a fraca, engraçada e quase um estereótipo pastelão dentro do programa. Mas sua personagem cresce muito durante a temporada e rende ótimos momentos, lembrando a Charlote de Sex and the City. Lynette é a mulher que sacrificou a carreira pela família, tem quatro filhos-pestes e um marido dedicado, o que não a impede de ter neuroses como qualquer outra mulher. Ponto para o programa já que seria fácil colocar ela como uma santa conformada com sua vida por um marido fiel e dedicado.

Mas é Bree a personagem que rouba o show. Irritante no começo, apaixonante no final, é a mulher que mais precisa de ajuda, justamente pelos seus padrões bem definidos e seguidos a risca. E neste primeiro ano a pobrezinha foi judiada: descobriu que o marido tinha um caso com a vizinha porque ela não o satisfazia sexualmente, para logo em seguida descobrir que ele tem taras SM; não consegue convencer a filha de que sexo antes do casamento é errado e quase surta (ou melhor, surta, num dos melhores episódios da temporada) quando o filho se declara gay.

Uma lista que não tem nada de assustador, pelo menos pra quem não surta quando houve as palavras sexo, gay ou traição, mas que faz os cabelos lisos e sistematicamente arrumados de Bree Van de Kamp ficarem em pé. Esta dualidade entre o mundo real e o mundo sonhado da mulher mãe de família é a marca principal do programa, que obviamente, tem causado protestos com os recatados órgãos e associações de apoio a família americanas (grandes responsáveis, ao meu ver, pela destruição de muitas famílias).

Relação extra-conjugal com o jardineiro adolescente, suicídio (toda a primeira temporada é narrada pela defunta Mary Alice, que esconde um mistério só resolvido no último episódio), o sexo não-convencional num casamento, homossexualidade (o programa ganhou vários oh's quando mostrou o coming out do filho de Bree e do jardineiro (outro jardineiro) num beijo numa piscina) só fazem as atenções se voltarem ainda mais para um programa que sabe falar da rotina com acidez e humor negro e inteligência. E ainda que pareça tudo muito distante de nós brasileiros, principalmente no humor, tudo é só uma questão de adaptação.

Pode não ser pop como LOST, e provavelmente nem quer. Desperate Housewives é como Sex and the City: um programa de horror para a grande maioria, que talvez prefira não ver mulheres inteligentes tomando as rédeas. Supere o susto inicial e deixe o desespero tomar conta.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Bonitinho, mas ordinário

Chatinho até o osso, O Clã das Adagas Voadoras tem uma vantagem sobre o filme anterior de Zhang Yimou: quer ser menos poético nas lutas. O que ainda não nos salva de seqüências intermináveis de duelos coreografados em câmera lenta em que sabemos que só um (adivinha quem?!) estará vivo no final. É um filme menos cansativo do que Herói por querer ser um filme de personagens, mas escorrega feio por não ter muito o que falar.

Enquanto em Herói, Yimou queria contar a história das tentativas de derrubar o Imperador chinês, n'O Clã das Adagas Voadoras ele apenas situa o espectador num período histórico qualquer em que também tentam assassinar o líder da China para justificar os mocinhos e os bandidos. Do meio deles nasce um triângulo amoroso digno de novela – com um final pra lá de forçado – e a certeza de Yimou de que daria pra fazer um filme de duas horas com isso.

Não dá. Ainda que menos excessivo no quesito visual que seu filme anterior, o diretor só consegue fazer seu filme valer a pena pelo visual de algumas seqüências, como a da batalha no bambuzal. Mas fica longe de construir um filme que tenha momentos mais do que simplesmente bonitos. E na categoria “bonito, mas ordinário”, o cinema americano tem muito mais tempo de estrada.

O Clã das Adagas Voadoras
Shi Mian Mai Fu, China/Hong Kong, 2004.
Direção: Zhang Yimou
Elenco: Takeshi Kaneshiro, Zhang Ziyi, Andy Lau, Song Dandan.

Também tem a sensível melhora de conceito que Guerra dos Mundos conseguiu sexta-feira passada, numa sessão com amigos. Parece que já sabendo o que ver e esperar o filme funciona ainda melhor e com certeza subirá alguns postos na próxima avaliação de melhores do ano.