Quando aquela típica racionalidade interesseira cheia de armadilhas é suprimida, há o surgimento de um ambiente desconhecido, pouco confortável, isento de sons, de imagens, de palavras e atos que nos levem a reconhecer e antecipar (racionalmente) o que move e o que motiva.
Quando a supervalorização acerca da razão é então quebrada e reconhecida, cabe a capacidade primária sensorial - há tanto aposentada por invalidez - a função de levar ao centro do cérebro (aquele que pensa sentindo, não o que apenas pensa) as sensações que dão peso, cheiro, textura e luz a este novo mundo.
Quando Malick nos propõe rever a famosa história da chegada inglesa às terras norte-americanas, ele sabe que Pocahontas já foi feito pela Disney, que a trama já é conhecida, que os personagens já estão definidos, tirando exatamente daí a obrigação de fugir do que racionalmente é esperado e apostar no que certamente é rejeitado e inapropriado.
Quando a ingênua jovem índia sem nome é descoberta na tela com uma beleza que flerta com a beleza da própria américa virgem e inexplorada também é descoberto que a terra não é virgem tanto quanto a índia (apaixonante, bela, doce, suave, misto de virgem intocável do romantismo com heroína de atitude de história em quadrinho) não é a ingenuidade forçada e enganada vítima dos seres civilizados.
Quando este mundo novo excitante selvagem cruel se manifesta, são abandonadas as últimas tentativas de reconhecimento sobre o que é certo e errado, sobre quem são os heróis e quem são os bandidos, sobre sob o que vale morrer e o que vale viver, restando muito pouco sobre o que falar (de forma racional, linear, ilustrativa e demonstrativa) de um filme que se tem tanto para sentir.
Quando as luzes se acendem, o mundo da razão ilumina novamente deixando um vazio forte e intenso, que não dá respostas e empurra tudo o que foi sentido por duas horas lá pra dentro novamente.
O Novo Mundo
The New World, EUA, 2005
Direção: Terrence Malick
Elenco: Colin Farrell, Q'Orianka Kilcher, Christian Bale, Kirk
Acevedo, Jason Aaron Baca, Irene Bedard