quarta-feira, agosto 02, 2006

Quando

Quando aquela típica racionalidade interesseira cheia de armadilhas é suprimida, há o surgimento de um ambiente desconhecido, pouco confortável, isento de sons, de imagens, de palavras e atos que nos levem a reconhecer e antecipar (racionalmente) o que move e o que motiva.

Quando a supervalorização acerca da razão é então quebrada e reconhecida, cabe a capacidade primária sensorial - há tanto aposentada por invalidez - a função de levar ao centro do cérebro (aquele que pensa sentindo, não o que apenas pensa) as sensações que dão peso, cheiro, textura e luz a este novo mundo.

Quando Malick nos propõe rever a famosa história da chegada inglesa às terras norte-americanas, ele sabe que Pocahontas já foi feito pela Disney, que a trama já é conhecida, que os personagens já estão definidos, tirando exatamente daí a obrigação de fugir do que racionalmente é esperado e apostar no que certamente é rejeitado e inapropriado.

Quando a ingênua jovem índia sem nome é descoberta na tela com uma beleza que flerta com a beleza da própria américa virgem e inexplorada também é descoberto que a terra não é virgem tanto quanto a índia (apaixonante, bela, doce, suave, misto de virgem intocável do romantismo com heroína de atitude de história em quadrinho) não é a ingenuidade forçada e enganada vítima dos seres civilizados.

Quando este mundo novo excitante selvagem cruel se manifesta, são abandonadas as últimas tentativas de reconhecimento sobre o que é certo e errado, sobre quem são os heróis e quem são os bandidos, sobre sob o que vale morrer e o que vale viver, restando muito pouco sobre o que falar (de forma racional, linear, ilustrativa e demonstrativa) de um filme que se tem tanto para sentir.

Quando as luzes se acendem, o mundo da razão ilumina novamente deixando um vazio forte e intenso, que não dá respostas e empurra tudo o que foi sentido por duas horas lá pra dentro novamente.

O Novo Mundo
The New World, EUA, 2005
Direção: Terrence Malick
Elenco: Colin Farrell, Q'Orianka Kilcher, Christian Bale, Kirk Acevedo, Jason Aaron Baca, Irene Bedard

setenta:8

Os únicos dois filmes de Roman Polanski que conferi foram O Bebê de Rosemary (e não pude conferir até o fim, veja bem) e O Pianista. Em ambos, há uma complexidade, seja visual ou seja temática, que me faziam esperar algo tão complexo quanto em Chinatown.

Não que o filme seja simples e regular. Pelo contrário, a escolha de planos (todos os que se encontram dialogando são memoráveis), da trilha sonora, dos detalhes em como as pistas da trama são distribuídas durante suas duas horas de duração apenas mostram uma complexidade diferente. Digamos, que seja menos pesado, mas não menos complexo.

Hipnótico, no melhor estilo dez-minutos-em-duas-horas, não tem o final-surpresa contemporaneamente exigido, preferindo manter a tensão e apreensão do espectador até o último minuto, antes de confirmar (ou não) as suspeitas sobre o mistério da trama e, só então, se explicar.

Enfim, típico ótimo-filme que não há muito o que ficar falando.

Chinatown
Chinatown, EUA, 1974
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, John Hillerman

setenta:(eu não disse!)

Este aqui está no mesmo nível de O Sentido da Vida: as piadas estão lá, são bem construídas (algumas delas levam um tempo enorme pra serem construídas), são reforçadas por um visual que ora quer se fazer sério, ora parte pra sacaneação generalizada. Mas nada consegue (me) fazer rir.

Um amigo me olhou espantado com essa definição (boas piadas que não são engraçadas), mas foi a única maneira que consegui descrever a frustração em conferir o filme do grupo inglês, ainda mais depois da ótima experiência com A Vida de Brian.

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado
Monty Python and the Holy Grail, EUA, 1975
Direção: Terry Gilliam e Terry Jones
Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Connie Booth